A vida de Matheus na Bolha
 


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O Maldito (Mosquito der Schänder)

por Matheus Ferraz

"A mente humana esconde mistérios impossíveis de explicar..."


Um homem surdo mudo, invade um cemitério e rouba arranca da tumba a sua jovem vizinha, morta num acidente, e por quem nutria um amor secreto. Ele tenta acordá-la e fazê-la dançar, como costumava fazer em vida, mas ela está rígida como uma estátua. Finalmente, ele faz um corte na própria mão, espalha o sangue nos lábios mortos dela e os beija, antes de fugir correndo.

Apenas pela descrição desta cena, o leitor sabe o que esperar do filme suiço Mosquito der Schänder (lanado por aqui com o batido título O Maldito). Pois esta produção obscura, feita em 1988 na Suiça pelo cineasta Marijan Vajda pode ser definido como um cruzamento entre Buio Omega, Maniac e Schramm (sendo este último posterior). Veja bem, o personagem principal (que, como todos os outros no filme, não tem nome) é solitário e tem uma obsessão por sua vizinha, a única que o trata com humanidade (como em Schramm) e vive sozinho, rodeado por bonecas de gesso (semelhante a Maniac, onde o personagem vivia com manequins) e passa seus dias profanando túmulos, chegando a se relacionar com o cadáver de sua amada (o que lembra muito Buio Omega). E, como nos três filmes, o Mosquito (nome "de guerra" do personagem, que vamos usar a partir de agora) é levado à loucura, e se torna um psicopata sanguinário.

Mas, analisando com mais calma, O Maldito tem brilho próprio, e mesmo com uma produção miserável, é um filme mais profundo do que se espera, e chega a ser poético em diversos pontos. Não entenda mal, ele não deixa de ser sanguinário, feio e brutal em muitos momentos. Mas é capaz de criar uma empatia rara em produções de temática semelhante, mesmo que não escape de ser piegas às vezes.

O Mosquito (Werner Pochath, de Manhunter - O Sequestro e O Gato de Nove Caudas, e que passa o filme todo sem dizer uma palavra), é um homem tímido, funcionário exemplar no escritório onde trabalha, e reside num cortiço, onde mantém seu apartamento pintado de preto e cheio das tais bonecas de gesso. Elas são um símbolo da sua irmã, morta pelo pai alcóolatra quando ainda era criança. Numa flashback pertubador, vemos a garotinha sendo alisada e morta pelo pai, que ainda espanca o jovem Mosquito, que fica lesado a ponto de perder a audição e a fala.

O dia a dia do Mosquito não é muito feliz também. É humilhado por todos: os colegas de trabalho (um deles é a cara do Stan Lee!), por uma prostituta das mais barangas que o aborda nas ruas e o manda embora do quarto depois de ver que ele não sabe o que fazer com ela, pelo seu senhorio... Enfim, a única pessoa que parece ter algum carinho pelo coitado é a tal vizinha, que passa os dias escutando música e dançando.

Acompanhamos a rotina miserável do homem, até que ele, sem explicação nenhuma, começa a invadir criptas e mutilar cadáveres frescos. Primeiro, ele apenas esfaqueia um dos corpos. Depois, arranca os globos oculares (o efeito é pobre, mas a visão das pálpebras murchas é repelente) e os guarda num pote. Mais tarde, de posse de um tubo de vidro, ele finalmente se torna um vampiro, bebendo o sangue dos mortos (que, aliás, já deveria estar coagulado).

A transformação do personagem é completamente enigmática, e por isso mesmo tão chocante. Como nunca diz uma palavra sequer, e como suas ações rotineiras são tão mecânicas, nunca é possível imaginar o que ele está pensando ou o que o leva a fazer o que faz. O Mosquito (nome que ele passa a escrever nas cenas de seus crimes) continua vivendo sua vida como sempre, sem se tornar menos ou mais violento, mais ou menos feliz, uma pessoa pior ou melhor. Trabalha, anda em sua lambreta e dá de comer ao rato de estimação. À noite, invade os túmulos e faz o que precisa fazer, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Mas tudo dá uma guinada quando a vizinha morre, despencando do telhado de sua casa enquanto dançava. É só então que a insanidade real atinge o Mosquito: se antes ele parecia completamente à vontade com sua vida miserável, a morte da única pessoa que amava o faz abraçar completamente o seu ódio pela humanidade, e pronto: um assassino está solto nas ruas de Nuremberg!

O roteiro, de um(a) tal N. Supasi, consegue, não se sabe se por inteligência ou acidente, criar um personagem realmente rico e complexo. O Mosquito é simpático, apesar de sua loucura, e o espectador sente um verdadeiro ódio dos seus inimigos. Mas, mesmo assim, há muitos defeitos. Para começar, nunca há uma caça real ao criminoso. Apesar de os crimes do profanador de tumbas ganharem fama nacional, continua sendo a coisa mais fácil do mundo invadir as criptas, que deveriam estar trancadas e vigiadas. Outro problema grave ocorre na cena em que o Mosquito invade uma cripta e assina seu nome antes de se dedicar ao "trabalho". Eis então que um guarda entra, forçando o invasor a se esconder. Não é que o guarda, que mais do que qualquer um deveria saber sobre o violador de tumbas, simplesmente vê a assinatura ali e ignora, como se não significasse nada? Talvez o diretor Vajda tivesse optado por manter a perseguição ao Mosquito fora da trama (como fez John McNaughton no infinitamente superior Henry: Retrato de um Assassino), mas se fosse assim deveria ter mantido a lei fora do destino do personagem, ao contrário da conclusão utilizada no filme.

Outro ponto do qual muitos reclamam é a figura da vizinha, que chega a ser irritante com sua dança e cantoria. Mas, pessoalmente, considero este exagero na inocência dela um símbolo do que o Mosquito considerava realmente bom neste mundo, o que torna sua morte decisiva na queda de sua sanidade.

Se há uma coisa realmente excepcional, seria mesmo a atuação silenciosa e ainda assim cativante de Pochat (que tem uma certa semelhança com Cristoph Waltz), realmente trágico como o Mosquito. Quanto ao resto de elenco, nada muito relevante, além de ser impossível citar nomes, já que os créditos não informam direito quem interpretou quem.

A antiga fita da United Films (quer curiosamente trazia o trailer de outro filme chamado Mosquito, um trash estralando Gunnar Hansen) é praticamente impossível de encontrar, sendo que só veio parar nas minhas mãos por pura sorte. Mas há cópias em DVD circulando nos EUA e na Grécia, e é possível encontrar versões piratas em sites especializados em filmes raros. Minha recomedação: se tiver a oportunidade, não despreze O Maldito. É um filme que realmente merece uma chance.



 Escrito por M. Ferraz às 20h33
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Qual é a pior coisa que você já fez?


http://babble.com/CS/blogs/strollerderby/little%20children.jpg

Pecados Íntimos (Little Children, Todd Field, 2006)

 

http://lucas4you.files.wordpress.com/2009/02/glass5.jpg

Tras el Cristal (Agustí Villaromga, 1987)

 

http://www.thebriefingroom.com/archives/woodsman.jpg

O Lenhador (Woodsman, Nicole Kassel, 2004)

 

http://blogs.guardian.co.uk/film/candy460.jpg

Menina Má.Com (Hard Candy, David Slade, 2005)

 

http://zacpage.files.wordpress.com/2008/10/mystic_river.jpg

Sobre Meninos e Lobos (Mystic River, Clint Eastwood, 2003)

 

http://www.chucksconnection.com/sleepers/sleepers02.jpg

Sleepers: A Vingança Adormecida (Sleepers, Barry Levinson, 1996)

 



 Escrito por M. Ferraz às 11h00
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"A mentalidade dos linchadores é sempre mais assutadora que a do Frankenstein"

 

Nosso país, nas últimas semanas, entrou numa febre assustadora, que ainda vai gerar consequências por muito tempo. Estou, é claro, me referindo ao caso Nardoni, cujas implicações se tornaram muito mais preocupantes do que o crime em si. Hoje à tarde, o advogado de defesa do caso foi vaiado e chamado de "mercenário" durante uma entrevista coletiva frente a uma multidão enfurecida. Multidão esta que já tem como certo desde o dia do crime que o casal acusado é culpado, mesmo que para isso não tenha nenhuma informação além da que foi veiculada pela mídia. E, convenhamos, só um Auguste Dupin da vida poderia desvendar um crime através de jornais.

Como escrevo isso durante o julgamento, não faço idéia se o casal será declarado inocente ou culpado. Mas esse não é realmente o ponto aqui. O fato é que se REALMENTE forem culpados, aquela multidão que se aglomera frente ao tribunal, e que a esta hora deve estar comprando cervejas mantidas em caixas de isopor cheias de gelo pelos ambulantes que transitam frente ao "espetáculo", sairão irados, loucos para fazer justiça com as próprias mãos. O que muda se o casal for absolvido? A frustração. Foi afirmado pelo juiz que caso eles sejam declarados inocentes, poderam voltar para a casa, mas você e eu sabemos que não é assim, certo? Este povo, não só o aglomerado frente ao tribunal, mas aquele espalhado pelo país, colocarão suas mãos em tochas e forcados, e como a multidão ensancedecida que são, perseguirão seu Frankenstein até terem a chance de lhe queimar até as cinzas. Em outras palavras, vão estravazar a frustração de suas vidinhas normais da pior forma possível.

Mas não é só isso que me preocupa. Hoje, ao entrar no fórum do diretor Victor Salva, no IMDB, me deparei com uma situação saída do filme "Pecados Íntimos". Salva, para quem não sabe, é o diretor do filme "Olhos Famintos", e foi liberado da cadeia há vinte anos atrás, depois de cumprir pena por abusar de menores. Salva, como criminoso sexual, entrou num programa de reabilitação, que dita que ele deve seguir sua profissão. No caso, diretor cinematográfico. Agora, no tal fórum, 9 em 10 mensagens são de ódio, campanhas de boicote ao seu filme e, pasme, uma certa mensagem que diz "Seria legal se o governo permitisse a gente caçar e matar pedófilos".

Ah, a velha sede de sangue. Ela se justifica por tudo. O linchamento é provavelmente a forma mais insana de crime possível, mas sempre encontra uma justificativa, já que o "monstro" a ser destruído, em teoria, sempre teria causado mais destruição. Não duvido que, caso realmente aquela ordem de soltura for declarada, vamos ter um moinho queimado por aqui. Mesmo que os monstros que queiram devorar aquelas pessoas não sejam, de forma alguma, menos violentos, ameçadores ou intimidantes. Eles só são a maioria dos votos.



 Escrito por M. Ferraz às 22h35
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Pelo direito do Monstro em ser Monstro

http://www.thecinemasource.com/blog/wp-content/uploads/The_Wolfman-12-Benicio_Del_Toro-Emily_Blunt-Anthony_Hopkins-Hugo_Weaving.jpg

 

Li e ouvi muitas críticas sobre o filme O Lobisomem, de Joe Johnston, em cartaz nos cinemas. Muitos denegriam o filme, outros o classificavam apenas como "divertido". Acho que poucos sentiram na película a importância que eu senti, importância esta que vai além dos aspectos como trama, elenco e qualidades técnicas.

O Lobisomem está entre aquelas produções que significam algo mais do que o que está contido na sala de exibição. Ele representa algo: o direito do Monstro em ser Monstro. O significado maior está quando você sai do cinema e se põe a analisar.

Primeiro, uma opinião pessoal: para mim, nenhuma produção de Horror se compara aos monstros clássicos da Universal. Mais do que filmes de excelente qualidade, se trata do cinema de horror em seu estado mais puro. Os monstros e ícones criados por gênios como Todd Browning, James Whale, Jack Pierce e Curt Siodmak e trazidos a vida por outros gigantes como Bela Lugosi, Boris Karloff, Claude Rains, Colin Clive, Lon Chaney e um enorme "etc", ficarão no imaginário coletivo até o fim do mundo.

Estes ícones foram trazidos nos anos 30 e 40, e modificados ao longo dos anos. Mas jamais abandonados, em época alguma. É possível encontrar ecos de Bela Lugosi em 95% de todos os vampiros da sétima arte, resquícios do laboratório de Henry Frankenstein no equipamento de todos os cientistas do gênero fantástico.

Mas a arte tende a ser iconoclasta, e os realizadores tentam fugir destes símbolos imortais. E aos poucos perdem o caminho.

O vampirismo, no lugar de uma maldição, tornou-se algo a ser almejado. A licantropia, mais do que um tormento, é agora uma espécie de super-poder. "Como vamos atualizar isto para o público de hoje?", pensam os produtores, e o resultado chega dos petardos dos livros geração MTV; passando pelo RPG onde cada um escolhe seu monstro, como na minha infância escolhíamos entre Goku e Vegeta; até os extremos de tornar os vampiros algo entre bestas canibais sem raciocínio ou membros de uma boy band.

Vez ou outra surge algo como "Deixa ela Entrar" ou "Sede de Sangue". Casos em que a iconoclastia serve o bem.

E onde entra O Lobisomem nisso? Este tenta um filme de monstro, como um filme de monstro deve ser. Não importa se consegue, o simples fato de tentar, nestes dias, já é de um valor imenso.

O Homem-Lobo em que Benicio Del Toro se transforma é uma abominação. Sua força imensa e sua agilidade não estão ali para que ele se torne um novo anti-herói. Quando dois monstros lutam, não é para criar um chefão no videogame. Você pode sentir o gosto de Bela Lugosi e Lon Chaney se batendo em "Frankenstein encontra o Lobisomem". Gwen Conliffe (Emily Blunt, além do adorável) é a perfeita mocinha da era prateada dos monstros, em seu desespero ao ver o amado se tornar uma besta selvagem, lembrando maravilhosamente Gloria Stuart em O Homem Invisível. Já Anthony Hopkins traz um quê do Dr. Frankenstein de Peter Cushing (algumas eras adiante), mas principalmente do Ygor de Lugosi, um monstro humano e sem conflito por sua condição. E, finalmente, Hugo Weaving faz uma versão do Inspetor Abberline, e seu olhar e frases sarcásticas me fizeram imaginar um Professor Van Helsing interpretado por Ernest Thesinger.

Os monstros se reúnem, e apesar de muitos erros (trama rebuscada, reviravoltas desnecessárias, edição truncada) a experiência acaba sendo maior do que o filme. E eu me senti assistindo o filme de monstros da Universal da minha geração. Uma experiência que, tristemente, será dificilmente repetida.



 Escrito por M. Ferraz às 20h31
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A morte de Heath Ledger

O título deste post deve realmente soar estanho, afinal o ator mundialmente famoso por sua atuação como o Coringa em Dark Knight morreu em 22 de janeiro de 2008, ou seja há mais de 2 anos. Tempo demais para chorar por uma pessoa que nem ao menos conhecemos, não?

Então, sugiro uma visita ao fórum do IMDB, onde posts fresquinhos ainda dizem coisas como:


"I don't know why but after watching the Osacrs, I just felt that I terribly miss him. Lots of new comers won today and I thought Hollywood has new talent and i remembered Heath as the new IT talent and now he is gone and there is no one to take his place."

ou

"You will never be forgotten and will go down as a great young actor with a successful though tragic end
I, personally, miss you very much"


Estas mensagens foram postadas há menos de um mês atrás. E, acredite, isso é a ponta do iceberg. Passados dois anos da morte de um ator até bom, mas cujas performances realmente extraordinárias não passam de duas (sendo seu trabalho como Ennis del Mar anos luz melhor do que aquele filhote de Beetlejuice com Hans Landa, cuja boa composição foi estragada por mais elogios do que merecia), é inacreditável como ainda tem gente dizendo "sinto falta dele", ou "ainda não posso acreditar que ele se foi".

Acorda, gente!

Não sei se esses geeks já ouviram falar de um cara chamado Paul Newman, indicado a dez Oscars e vencedor de um de melhor ator, além de dois prêmios pelo conjunto da carreira, que tem em sua carreira muitos dos filmes mais importantes de todos os tempos, e que morreu há menos tempo do que o Coringão, mas pelo qual ninguém parece estar chorando mais.

É só um exemplo. Os últimos tempos foram de grandes perdas para o cinema. E perdemos nomes muito mais importantes do que Ledger, nomes pelos quais vale mais a pena chorar. E mesmo assim, não acho que valha a pena se lamentar por dois anos por uma pessoa que nunca se vai conhecer.

O que mais importa num ator é o seu trabalho. E o conjunto da obra de Ledger é irregular demais para tanto choro.



 Escrito por M. Ferraz às 18h25
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E estrelando Paul Scofield como Aveia Quaker!

 

http://farm4.static.flickr.com/3113/2347280929_17b7bb74dc_o.jpg

http://deliciascremosas.files.wordpress.com/2008/05/quaker1bt3.jpg



 Escrito por M. Ferraz às 20h56
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