Meus caros leitores, gostaria de pedir licença e divergir um pouco dos temas normalmente tratados neste blog, mas uma série de acontecimentos tão coincidentes me leva a postar este texto, que apenas faltava uma raça de alienígenas alérgicos a água invadir a Terra para eu saber que tudo conspirava para que eu digitasse estas linhas agora.
Antes de tudo, gostaria de pedir aos meus silenciosos visitantes que se manifestassem nos comentários, pois gostaria de saber sua opinião sobre o assunto aqui discutido.
Ontem fui a uma sessão do filme Coco antes de Chanel, estrelado por minha queridíssima Audrey Tatou. Não chega a ser um filme exatamente espetacular, mas me botou para pensar. Conta o início da carreira da estilista Coco Chanel, antes de se tornar o nome mundialmente conhecido que é hoje. O que me chamou a atenção foi a situação representada por um diálogo entre Coco e sua amiga Emiliana. Quando esta primeira diz que pretende trabalhar, a segunda pergunta: "Trabalhar? E por que não se casa com um homem rico de uma vez?"
Por que não? Era uma prática comum, não? E não vou por aqui o feminismo defendido por Chanel (recomendo que assistam ao filme para isso) mas o que realmente chama a minha atenção, por estar nas bordas do meio artísitico, é o número de pessoas que já vi se venderem para conseguir o sucesso. E eu quero dizer, realmente, vender a si mesmas. Não sou moralista quanto ao sexo, apesar de ter minha moral pessoal, mas acho que cada um faz o que quiser com seu corpo, gostemos ou não. Mas sou mais conservador quando se trata de arte. E ver alguém se vendendo para conseguir status na arte, isso é algo que eu não posso tolerar.
Amigos, não costumo ler entrevistas de celebridades globais. Mas dei uma rápida olhada numa revista de sala de espera, e me deparei com Juliana Paes reclamando que as pessoas a vêem mais por sua beleza do que por seu talento. Mas como não? Uma mulher que dá mais entrevistas falando de sua pessoa do que do seu trabalho merece ser conhecida por seu talento? E não, não tenho problema algum com a forma como ela comercializa (esta é a palavra) seu corpo em ensaios e novelas. Mas é um caso de pôr os pingos nos "is".
Meu pai costuma mencionar Johnny Cash como o símbolo do homem que venceu por seu talento. Aquele era o cara que, com um violão e sua voz, podia conquistar o mundo. Mas tem gente que não tem violão, não tem voz, mas quer o mundo. E às vezes precisa se vender para isso. E não raro, as pessoas o fazem. Não há nada de errado em pedir ajuda. Mas suplantar pessoas melhores, simplesmente por ter menos escrúpulos, isso é errado. Não há dignidade nisso.
Eu sei, o mundo é dos loucos. Mas, quer saber? Eu já vi ricaços de sessenta e tantos anos de braços dados com modelos de vinte e um, que "coincidentemente" no mesmo momento estavam começando a fazer sucesso. Foi uma verdadeira revelação de como o mundo funciona. Mais uma consideração, nada de errado em relações com diferença de idade. Como também não tenho nada contra universitárias que se prostituem para pagar a universidade. Porque há dignidade nisso. Giacomo Casanova, ao descobrir que uma de suas conquistas não sabia ler nem escrever, lhe pagou professores. Há dignidade nisso também. Nem toda prostituição é indigna.
Maria Callas, a maior cantora lírica do século XX recusou, ainda uma ninguém no início de carreira, o papel de Madame Butterfly no Metropolitan, que poderia torná-la mundialmente famosa desde aquela época, porque não achava que se encaixava no papel.
Isso é tão raro neste mundo de loucos...
E qual o ponto disso tudo? Acho que quero dizer que, enquanto a arte for uma forma de se alavancar, enquanto tudo valer para "chegar lá" e enquanto se vende, (não o corpo, mas a si mesmo) for uma forma válida de conseguir isso tudo; enfim, enquanto nós encararmos estas coisas como rotineiras e passáveis, acho que o talento não vale muita coisa. E se é assim, qual o ponto da arte?