
Acabo de ver aquele que não sei definir a não ser como "o filme mais bonito que já vi", ou seja, Mamma Roma, de Pier Paolo Pasolini. Incrível, tocante, verdadeiro e emocionante sem nunca (NUNCA) ser piegas. Anna Magnani está perfeita no papel da mãe solteira tentando dar rumo à vida do filho, linda, fascinante e com uma risada única. Pasolini, o cineasta que levou a perfeição a arte de fazer filmes que servem tanto para intelectuais quanto para o povo, mostra aqui como realmente deve ser o cinema: sem frescuras, sem excessos e, sobretudo, com uma HISTÓRIA cativante. E conseguiu fazer o melhor filme de sua carreira.
Escrito por M. Ferraz às 19h03
[]
[envie esta mensagem]
[link]
Ghosts... of the civil dead por Matheus Ferraz

"Um filme estranho, que merece ser visto"
Com estas palavras, Carlos Thomaz Albornoz definiu o filme "Ghosts... of the civil dead" em sua coluna na extinta revista Cine Monstro. Definição perfeita deste pequeno e obscuro filme, dirigido em 1988 pelo hoje célebre John Hillcoat (diretor do esperado "The Road"). "Estranho" por sua narrativa de situações pouco definidas, onde os acontecimentos mais importantes são narrados com letreiros, deixando ao espectador apenas suas consequências. E "merece ser visto", sem dúvida, por se tratar de uma das obras mais viscerais a retratar a vida na prisão.
Existem obras que, mesmo não contendo elementos sobrenaturais ou ligados ao que se costuma chamar "cinema de horror" (como assassinos ou zumbis) ainda assim se encaixam ao gênero por sua brutalidade. "Ghosts... of the civil dead" se encaixa mais como "terror" do que "horror" (a diferença é sutil), por deixar o espectador mais intimidado do que realmente com medo.
São muitos os filmes retratando prisões, de diversas formas e estilos. Deixando de lado os WIP (filmes explotation retratando penitenciárias para mulheres) e pegando como exemplo filmes sobre prisões masculinas, a variedade é imensa. Entre filmes com foco na fuga da prisão (Fuga de Alcatraz) e outros sobre a vida atrás das grades (Carandiru, Um Sonho de Liberdade), poucos são os que, realmente mostram o inferno que é se viver em celas da mesma forma que "Ghosts... of the civil dead".
O título (porcamente traduzindo: "Fantasmas... dos mortos civis") se refere a um termo corrente na lei judiciária romana: os tais "mortos civis" seriam os prisioneiros completamente destituídos de direitos dentro da prisão. O roteiro, escrito a dez mãos, retrata a Central Industrial Prision, uma penitenciária de alta segurança no meio do deserto da Austrália, aonde os criminosos mais perigosos são enviados. Os detentos estão no sistema de "tranca" (ou seja, 24 horas por dia dentro das celas) há 37 meses, o período mais longo da história do sistema carcerário. O filme então volta no tempo para explicar os motivos que levaram à aplicação da "tranca".
Somos apresentados à rotina na CIP, uma prisão que a princípio lembra mais uma escola ou um shopping, onde os presos tem liberdade para entrar e sair de suas celas para comercializar drogas, sexo e o que quiserem. Wenzil (David Field) é o novato na CIP, que aprende rápido como as coisas funcionam. A cada olhar você pode sentir a violência esperando para explodir nele (o que acontece mais de uma vez). Mas ele não é nem de longe o detento mais perigoso do lugar. Estes seriam Grezner (Chris de Rose) e Maynard (o músico Nick Cave, co-autor do roteiro e da trilha sonora, aqui numa interpretação completamente assustadora). O primeiro é um ex-policial, assassino frio e ameaçador, que parece calcular cada movimento na prisão. Já o segundo é um dos psicopatas mais insanos já mostrados no cinema. Maynard parece não ter lógica ou propósito, chegando ao ponto de arrancar seu próprio sangue para escrever nas paredes e berrar a noite inteira até levar todos na ala ao limite.
Só que nenhum destes é o vilão do filme. O verdadeiro vilão permanece escondido o filme inteiro: é a administração que comanda toda a penitenciária, tendo como fantoches os guardas e o superindentente Yale (Mike Bishop) que tenta se manter são no meio do jogo dos chefes invisíveis. É a administração que começa a destruir gradualmente a liberdade dos prisioneiros (lhes tirando os pertences, TV, recreação e sexo) até chegar ao ponto que o lugar se torna uma bomba prestes a detonar. Ou, nas palavras de Grezner: "Você só pode empurrar as pessoas até um certo ponto, até que elas te empurrem de volta. E todo mundo sai perdendo".
A execução do filme é brilhante. Todas as cenas (com uma única exceção) são feitas dentro das paredes da CIP, ao ponto que o próprio expectador se sinta preso também. Não há um personagem principal, e as situações são descritas por meio de múltiplas narrações. Vários incidentes importantes (o assassinato de um dos internos, um suicídio em particular) não são mostrados, apenas citados através de letreiros. E, ao contrário de tantos outros filmes, este não tem pudor em mostrar a nudez e o homossexualismo quase explícito na peninteciária. As cenas de splatter são muito poucas, mas se respira violência a cada quadro: vide os guardas de plantão na madrugada, ameçados verbalmente durante toda a noite pelos detentos nas celas. Ou uma das cenas mais chocantes, que ocorre quando Wenzil espanca outro interno e rouba seu rádio. Horas depois, quando usa o aparelho para pagar por uma tatuagem, é atacado por dois enviados do homem que roubou, espancado, estuprado e tem a palavra "CUNT" (boceta) tatuada na testa. Quando o travesti preferido da prisão, Lilly (o cantor country Dave Mason), portador de sífilis, se aproveita disso para contra-atacar uma provocação, Wenzil descarrega sua fúria com uma violência assustadora e covarde sobre ele. Há também Glover (Kevin Makey), preso na solitária há decádas e completamente alienado e isolado do mundo exterior. Seu universo é reduzido à sala escura onde passou a maior parte de sua vida, ao ponto de nem se lembrar o motivo pelo qual foi trancado,
Tudo isso se mistura até o final, onde o mais inofensivo dos prisioneiros é transformado num psicopata furioso, rendendo o sistema de "tranca" e um destino sarcástico a alguns outros condenados. E, se ainda resta alguma dúvida quanto a credibilidade do filme, saiba que ele não apenas foi baseado em estudos extensivos e casos reais como, a exceção de Nick Cave e Dave Mason, que são músicos, e outros quatro atores profissionais (não especificados), todos os personagens são interpretados por ex-priosioneiros e ex-funcionários de prisões reais. Ou seja, não há nada de artificial no que vemos ali, tudo foi planejado para criar o máximo de realismo e brutalidade possíveis.
"Ghosts... of the civil dead" é isso, um estudo sobre a vida entre barras, e, mesmo com este rótulo ainda se trata de cinema no melhor que possa oferecer, tanto no elenco quanto na parte técnica. Talvez a grande história sobre o inferno das prisões masculinas, ao lado do espetacular filme "O Expresso da Meia-Noite" de Alan Parker e do livro "O Pátio Maldito", de Ivo Andritch. Não é divertido nem passa entretenimento. Mas é, com certeza, um dos maiores exemplos do que um homem pode se tornar quando é pressionado ao seu limite.
Escrito por M. Ferraz às 21h16
[]
[envie esta mensagem]
[link]
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
|