VAMPIROS DA MEIA-NOITE (continuação) 
Parte 2: “I am Dracula"
Era início dos anos 30, e a peça “Drácula”, baseada no livro de Bram Stoker sobre um certo Conde romeno com sede de sangue estava fazendo muito sucesso pelos palcos dos Estados Unidos. Hollywood já pretendia adaptar o livro de Stoker há algum tempo, mas a queda da Bolsa e a Depressão econômica fizeram com que optassem por uma adaptação da peça, mais barata e rápida de filmar. Vale lembrar que o livro já tinha duas versões para o cinema: o húngaro “A Morte de Drácula”, filme obscuro e que pouco tinha a ver com a obra original; e o famoso alemão “ Nosferatu”, de F.W. Murnau. Para a produção do primeiro filme de horror falado da história, foram escalados Paul Leni e Conrad Veidt, respectivamente para a cadeira de diretor e para o papel do Conde. Leni e Veidt haviam sido os responsáveis pelo fantástico “O Homem que Ri”, e pareciam ideais para os cargos. Entretanto, Leni morreu antes da produção começar, e Veidt, inseguro quanto ao seu sotaque alemão, resolveu abandonar o navio (o que não deixa de ser uma ironia, já que o sotaque foi uma peça chave na caracterização de Drácula). O estúdio “ Universal” resolveu então contratar Tod Browning para o cargo. O diretor havia feito apenas um filme falado, “The Thirteenth Chair”, e ainda não estava confortável com o novo formato.
Lon Chaney era a escolha óbvia para o papel principal, mas o “Homem das Mil Faces” descobriu estar com câncer, e teve de ser substituído. Foi então escalado o húngaro Bela Lugosi, que fazia o papel no teatro, e encarnou com maestria o vampiro.
De seu castelo na Transilvânia, o Conde Drácula se muda para a cidade de Londres, acompanhado pelo servo Renfield (Dwight Frye), um corretor de imóveis que ele mantém sob seu domínio. No caminho, ele mata toda a tripulação do navio que o transportava. Já na Inglaterra, o Conde parte para cima de Lucy Weston (Frances Dade) e Mina Murray (Helen Chandler). Somente o obstinado Professor Van Helsing (Edward Van Sloan) pode pôr um fim à saga de crueldade do terrível vampiro. Quem viu o filme conhece bem suas limitações. Browning ainda estava preso ao formato teatral da peça e do cinema mudo, o que rendeu um filme tecnicamente quadrado e burocrático. O fato de estar nos primórdios do cinema sonoro resultou numa ausência de trilha sonora, o que contribuiu para o clima soturno e opressivo. O filme se vale do carisma de Lugosi e de Dwight Frye, no papel de Renfield, mas poderia ser bem melhor caso Browning estivesse mais à vontade.
Nada disso atrapalhou as bilheterias do filme, que faturou alto e começou o ciclo de monstros da “Universal”. Mas, independente de dinheiro ou das próprias deficiências, este é sim um dos mais importantes filmes já feitos, e deixe-me explicar o motivo.
A figura de Drácula não foi criada apenas no livro de Bram Stoker, mas principalmente através de inúmeras adaptações cinematográficas, que tiveram, praticamente todas, influência deste filme. Hoje em dia, qualquer criança, mesmo antes de aprender a ler ou escrever, já relaciona o nome “Drácula” à figura de Bela Lugosi. Os castelos em ruínas, capa preta, caixões rangendo, empregadas fáceis de manipular, e, principalmente, o vampiro como uma figura sedutora e atraente, eram elementos que, mesmo se estivessem presentes no livro, foram bastante acentuados no filme de Browning, e, a partir daí, pela história do cinema.
Imagine, por exemplo, se Lon Chaney tivesse assumido o papel do Conde. Para começar, ele com certeza iria elaborar uma maquiagem pesada para encarnar a face de Drácula. E aí, pode dar adeus para tudo o que foi construído sobre a figura do vampiro no século XX: a coisa iria ser completamente diferente. Os filmes sobre vampirismo, as sátiras, toda a mitologia do vampiro moderno inicia a partir deste ícone de Lugosi. No livro, Drácula não é um cara bonitão ou um galã, ele é uma praga nojenta e repulsiva, e se Browning tivesse resolvido mostrar o personagem assim, pode ter certeza que muita coisa seria diferente hoje em dia, não só no horror, mas posso arriscar a dizer, no cinema todo.
Então, para aqueles caras que falam “você diz que este filme é bom só porque ele é velho”, se estão se divertindo bastante com seus vampiros anabolizados em superproduções cheias de efeitos especiais, dêem graças a Browning e Lugosi, que fizeram a coisa acontecer no início, e mostraram como um vampiro tem que ser.
Escrito por M. Ferraz às 22h32
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VAMPIROS DA MEIA-NOITE (continuação)

Parte 1: O Hipnotizador 
“Londres Depois da Meia-Noite” foi realizado em 1927, quando Browning era um nome quente em Hollywood, e sua parceria com Lon Chaney estava a todo vapor. Baseado numa história chamada “O Hipnotizador”, o filme narra a investigação do assassinato de Sir Roger Balfour, encontrado morto em condições misteriosas. O professor Edward Burke (Chaney) é o encarregado de descobrir o motivo do crime, e chega à conclusão de que foi um suicídio. Tempos depois da investigação ser fechada, a mansão de Sir Roger está abandonada, sua filha casada, e surge a grotesca face de um vampiro (Chaney de novo) e sua filha (Edna Tichenor) nas ruínas da mansão, assombrando a vizinhança, e trazendo de volta Burke, que reabre as investigações do caso. A essa altura, todos devem estar cansados de saber que o vampiro era, na verdade, o próprio Burke, que, fazendo uso da figura assustadora do monstro, consegue trazer à tona a verdade sobre o assassinato de Sir Roger. A partir de truques de hipnotismo, ele encontra o verdadeiro culpado, e a paz volta a reinar. “Londres Depois da Meia-Noite” foi o primeiro filme norte-americano a trazer a figura do vampiro, mesmo que neste caso o vampiro fosse uma farsa organizada pelo professor Burke para desvendar o caso. A maquiagem de Lon Chaney é clássica, com seu sorriso entalhado, dentes de piranha e olhos esbugalhados. Maquiagem, aliás, sempre foi a especialidade deste grande ator, que, em filmes como “O Fantasma da Ópera” e “O Corcunda de Notre-Dame”, fez uso de diversos truques para se transformar nos mais estranhos personagens, o que lhe valeu o título de “Homem das Mil Faces”. O filme, infelizmente, está perdido hoje em dia. A última cópia conhecida foi destruída em um incêndio em 1967, e, pelo menos até hoje, não se tem notícia de outra remanescente. Entretanto, para quem quiser ter um gosto do filme, está disponível uma versão produzida por Ricky Schmidiln, que é uma colagem com fotos da produção, e tendo como base o roteiro original. Não é a mesma coisa de ver o filme em movimento, mas é melhor do que nada. Uma curiosidade é que o mito do vampiro ainda não estava plenamente estabelecido na época do filme, uma vez que a única grande produção do gênero então existente era o alemão “Nosferatu”. Portanto, a solução para manter os vampiros do lado de fora, ao invés de crucifixos e colares de alho, era um colar de rosas e duas espadas cruzadas em cada janela. Também é legal perceber que a figura do próprio vampiro, assim como Nosferatu, era mais de um monstro disforme, que jamais poderia se passar por uma pessoa normal, do que a imagem aristocrática imortalizada por Bela Lugosi em “Drácula”, quatro anos depois. Claro que muito disso perde importância no final, quando percebemos que o vampiro era uma farsa. Mas mesmo assim, o filme se conclui satisfatoriamente, e ganha pontos pela idéia criativa e pelo clima soturno. |
Escrito por M. Ferraz às 19h51
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VAMPIROS DA MEIA-NOITE (Atenção: este artigo revela detalhes importantes sobre os filmes analisados, e embora não os conte na íntegra, possui alguns spoilers.)
Apresentação
Como fã de horror clássico, uma das coisas que eu mais odeio ouvir é “Você diz que este filme é bom só porque ele é velho.” Isso vem com freqüência, em fóruns, Orkut e dos meus amigos. Hoje em dia, tudo o que conta é um bando de jovens drogados sendo esquartejados por algum maníaco qualquer, assim como cenas de computação gráfica e trilha pauleira. Não leve a mal, eu curto um bom splatter também. O problema são as pessoas que fecham os olhos e os ouvidos, e não querem nem ver um filme só porque ele é preto e branco ou tem mais de vinte anos, que dirá mais de 70, como os filmes alvos desta análise.
Bem, dizer que o filme é bom “só porque é velho” seria uma tremenda ignorância. Mas não se pode ignorar o fato de que o filme é “velho”, já que tem que se levar em consideração os recursos da época, bem como a interferência da censura e o próprio momento cultural em que foi feito. Mas, mesmo levando isso em conta, prefiro muito mais um bom clássico filme de monstros como “Frankenstein” de James Whale a um bagulho asqueroso e multimilionário como “Van Helsing”. Gosto é gosto, e não se pode impor nada à força. Esta introdução de desabafo vem para falar de Tod Browning, diretor nascido em 1880 e morto em 1962, que fez diversos filmes em diversos gêneros, mas acabou sendo conhecido por apresentar o gênero horror ao mundo do cinema falado, e trazer para o público a primeira versão oficial do maior vampiro da cultura pop no filme “Drácula”, de 1931, estrelando Bela Lugosi. E é importante lembrar que Browning não foi apenas o homem que dirigiu o primeiro filme de horror falado, mas também como o homem que fez o primeiro filme de vampiro nos EUA (Londres Depois da Meia-Noite, 1927). Tod Browning nasceu Charles Albert Browning, no estado americano de Kentucky. Estabeleceu sua carreira ao lado do astro Lon Chaney, em diversos filmes mudos feitos entre 1917 e 1929, e depois partiu para os filmes falados, que dirigiu até 1939, quando decidiu abandonar sua carreira, que já ia mal das pernas. Tendo sido educado no cinema mudo, Browning teve muita dificuldade para lidar com o advento dos filmes sonoros.
Não custa lembrar que nesta época Hollywood estava à caça de diretores de teatro, que soubessem lidar com diálogos, para dirigir filmes falados, e diversos artistas viram suas carreiras descer para o ralo por não conseguir se adaptar a esta nova tecnologia. Browning foi um dos diretores que tentaram se modernizar, mas enfrentou muita dificuldade no processo. Neste artigo, estaremos revisitando os três filmes que Tod Browning fez no gênero vampiresco, que foram os já citados “Londres Depois da meia-noite” e “Drácula”, além de “A Marca no Vampiro”, espécie de versão combinada dos dois, e tentar entender a importância deste diretor na história do cinema.
Escrito por M. Ferraz às 19h49
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